segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dia 26 de Julho 2010, meu aniversário de seis anos de iniciação para Oxum! Bariká fun mi!

Ilús que tocaram no dia do meu orunkó. Foto de Aluísio Moreira/PE

BARIKÁ FUN MI! (Parabéns para mim!)

Hoje, dia 26 de Julho de 2010, comemoro meus seis anos de iniciado para Oxum.
Celebrar é preciso!

Alexandre L'Omi L'Odò, no dia seguinte a festa do Orunkó. Foto de Aluísio Moreira/PE
Lembrar do dia 26 de Julho de 2004, é remontar a cena mais sublime que já pude mirar em minha vida. O dia da minha iniciação, do meu renascimento para a religião dos Orixás, o Babaxé (Aba Baxé ni Orí)*, a hora de minha morte e renascimento para minha fonte de equilíbrio negra natural. Oxum naquele dia entronou-se em definitivo e de forma irrevogável de uma só vez em meu Orí (cabeça) e na minha vida, no meu Odú pessoal.

Fui iniciado no Ilê Oyá T'Ògún, de mãe Lúcia Crispiniano, a mãe Lúcia de Oyá, sacerdotisa a quem devo todo meu respeito e formação iniciática no culto do Orixá e da Jurema Sagrada, a quem agradeço por todo carinho de cuidar (parir) de um filho tão complexo e difícil como eu, que sempre quero saber mais, entender mais e fazer mais por nossa religião, de forma a meu modo claro, "radical" e autocrítico.

Alexandre L'Omi L'Odò na segunda saída do Hunkó (colorida). Foto de Aluísio Moreira/PE
Recebí o chamado para a iniciação em Dezembro de 2003, em uma cerimônia de fechamento de ano da Jurema, onde quem estava no ponto era Dona Rosa, a pombojira dona do terreiro de Oyá, que me chamou em público e disse: "Nêgo dos cabilôro grande, vosmicê tem seis tempos (seis meses) pra fazer seu santo, Oxum quer seu cabilôro (Orí- cabeça)". E como sempre fui do axé e não sabia como conseguiria me iniciar sem estar preparado para os gastos e todas as responsabilidades que demandam a iniciação, indaguei a ela como poderia eu, desempregado, sem ter nenhum tostão para pagar a obrigação, fazer meu santo em seis meses (em Julho de 2004)? - Ela respondeu: Oxum vai lhe dar, pois é ela quem quer! e assim foi, Oxum, Ògún e Exú, além claro de Malunguinho, o Mestre Boiadeiro e a Mestra Paulina, deram de forma divina toda condição financeira e de estrutura psicológica e ideológica para eu cumprir as exigências do meu Orixá.

"Quando o Orixá quer, ele dá", assim já dizem os mais velhos, e eu pude confirmar isso na prática, que quando nossa divindade nos chama, temos que aceitar, de forma que, a entrega a nova vida seja completa e sem medos ou preconceitos, que o nosso renascimento seja comprometido com o equilíbrio e com a religação ancestral com nossos antepassados africanos.

Lembro ainda do grande Mestre da Jurema sagrada, o senhor Brasiliano, o Mestre Cibamba de D. Leide de Olinda, que aos meus 13 anos de idade (tempos que ainda era percussionista do balé afro Magê Molê) já havia revelado minha natureza, dizendo assim: "Nêgo, a Mulé do Ouro (Oxum) é sua mãe, ela que tá na sua caminhada pra sempre", revelando além de muito mais coisas, a forte relação que as divindades da Jurema tem com os sagrados Orixás africanos, estabelecendo uma ligação tão forte a ponto de informarem coisas que só o Ifá (sistema divinatório yorùbá) poderia dizer.

Sou da espiritualidade desde que nasci e hoje, ao passar de todo este tempo integrando o culto indígena da Jurema e o culto de matrizes africanas dos Nagô, posso dizer que estou mais forte em minha fé, em meu caminho, em minha compreensão de mundo, pois vivencio a experiência profunda da entrega, da quebra dos meus preconceitos, da luta contra o racismo e descriminação e intolerância religiosa, da luta contra os conceitos cristãos ocidentais em minha religião, na iconoclastia dos valores católicos e cristãos invasores de nossas mentes e vidas, e especialmente na liberdade de experienciar a relação integral com a espiritualidade ancestral.

Peço minha benção a Oxum por ela ter me aceito como seu filho, honrando minha vida, me possibilitando ser uma pessoa mais água do rio (L'Omi L'Odò) a cada momento, segundo, milésimo de segundo...

Mãe Lúcia de Oyá T'Ògún e Oxum. Foto de Aluísio Moreira/PE.

Falta apenas um ano literalmente para eu passar a ser um adulto em minha religião, completando o primeiros ciclo de sete anos sacerdotais, ganhando algumas liberdades, no ritual denominado de Deká**. Vamos em frente...

Deixo um Orikí para Celebrar o dia de hoje:

"Mo r'ómi màá jó- Vejo água, danço
Mo r'ómi màá 'yò-
Vejo água, sou feliz
àgbàdo mi l'ore òjò-
O meu milho é amigo da chuva"***

(As últimas duas linhas podem ser também traduzidas assim: Vejo água e estou feliz, assim como o milho é feliz quando vê a chuva. Conotando a importância da água na vida e no desenvolvimento do ser- fertilidade)

Como não pude fazer festa, fiz texto!

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*"Ato de sagração, no qual o Babalorixá leva o Elegum (filho do Orixá), a confraternar um contato mais eficaz com o seu Orixá. A cerimônia lembra um batismo, que é feito com sangue de certos animais, a depender do Orixá evocado. E, ao mesmo tempo, é o nascimento do noviço para a vida na seita, que tão logo, aconteça a comunhão entre o subordinado e o elemento encantado, fica estabelecido o transe com aquele que direcionará o seu destino, chega-se ao ponto épico, onde o já sagrado iaô, receberá uma Suna (nome), que fará pronunciado, no dia de sua apresentação pública.". OMINSULÁ, Roberto dos Santos Miranda. Mitos & Ritos Nagô, o Saber de Ominsulá. Editora Brasília, Bra. 1988. pag. 156.

**Deká- Ritual de transição do cargo sacerdotal de Iyawò (Elegun, iniciado para o Orixá), para o cargo de Egbomi (meu irmão mais velho). Mas digo: Deká não quer dizer nada!

***Oriki extraído da bibliografia: CARVALHO, José Jorge de. Cantos Sagrados do Xangô do Recife. Brasília: Fundação Cultural Palmares. 1993. pag. 96 e 97.


Alexandre L'Omi L'Odò.

Iyawò ti Osún.

alexandrelomilodo@gmail.com

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